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No frigir dos ovos, salvei o meu castelo

  • Foto do escritor: Pulga no passaporte
    Pulga no passaporte
  • 2 de set. de 2018
  • 4 min de leitura

[Península Ibérica, século I a.C.]


O Império Romano em expansão avança a partir das costas do Mediterrâneo, em busca da conquista de toda a península e domínio dos povos que lá vivem, dentre os quais os lusitanos. Estamos algures no interior, entre o Tejo e o Douro... em uma localidade ainda sem nome, na qual um castelo se ergue estrategicamente em um ponto elevado entre duas ribeiras.


O castelo na colina, vigilante sobre a ribeira

Nas lutas pela conquista da Lusitânia, o chefe do tal castelo veio a falecer, e os romanos avançavam contra as suas muralhas antes que os reforços pudessem chegar. Ao ser informada da morte de seu marido e a chegada dos inimigos, Celinda, a agora viúva e senhora do lugar, num misto de desespero e bravura, apoderou-se da sertã na qual fritava ovos para o almoço e rumou para as ameias do castelo, despejando azeite fervente e golpeando os atacantes, que se viram forçados a recuar.


Celinda em fúria

Sabemos que, eventualmente, os romanos acabariam por sair vitoriosos e ter o domínio de toda a Península. No entanto, para honrar o feito heroico daquela mulher e sua frigideira fumegante, foi dado àquela povoação o nome de Sertã, que perdura até hoje.


Mapa original do império romano retirado de https://fabiomesquita.wordpress.com/2012/03/25/mapas-roma-germania-e-idade-media/
Localização de Sertã no Império Romano, para vocês se situarem

A verdade é que a origem real do nome incomum da vila é desconhecida, então essa história – a Lenda da Celinda – é a explicação favorita. Eu não sabia antes, mas de fato a palavra sertã quer dizer “frigideira larga e de pouco fundo, de ferro ou de barro”. O que nem a palavra nem a lenda especificam, mas é lugar-comum, é que a tal da frigideira era retangular, pois assim tem sido estampado nos brasões, nas decorações e em tudo o mais. Sim, acreditem, há desenhos de sertã nas calçadas em pedras portuguesas e até uma estátua enorme da frigideira em uma das rotundas de acesso à cidade!


As várias sertãs pela Sertã - a frigideira retangular, que já estava presente no brasão da vila de 1629, hoje pode ser apreciada como estátua gigante, desenhos na calçada e até - quem diria - no novo brasão!

Bom, utensílios culinários / bélicos à parte, a Vila da Sertã é atualmente a sede de um município de mesmo nome, que fica no Distrito de Castelo Branco, Região Centro de Portugal - já ouviram falar? Provavelmente não, já que o interior do país tem muito menos visibilidade do que a faixa litorânea, ainda mais no exterior. Mesmo eu, com 10 meses de Portugal e fanático por mapas, conhecia mal e porcamente a localização do distrito. Da Sertã então, eu sabia sequer da existência!


Falha nossa, pessoal! Pois saibam vocês que o município se propagandeia como “bem na Alma de Portugal”, devido à sua localização geográfica. De fato, embora não esteja exatamente perto de nenhuma grande cidade, nada parece ser longe daqui. Coimbra e o litoral estão a 1h de viagem, e com 2h de carro consegue-se chegar a Lisboa, ao Porto, à Serra da Estrela e até à Badajoz, já na Espanha! Ajuda que Portugal é um país pequeno, mas ainda assim, é um local bem central.


Localização da Sertã em Portugal
Para vocês situarem Sertã em Portugal

Segundo o último censo (de 2011), o município tinha pouco mais de 15 mil habitantes, dos quais apenas metade residia na vila mesmo. Para padrões brasileiros, isso é nada - a imagem que vem na cabeça é a de um daqueles lugares pacatos de interior, onde o tempo passa devagar e só há uma única praça, para onde todas as pessoas vão à noite. Mas é preciso ajustarmos a escala: Portugal tem apenas 10 milhões de habitantes (cabe todo mundo na cidade de São Paulo e ainda sobra!), e o país é todo pontuado por vilas, aldeias e povoados. Não são poucos os lugares onde residem sequer mil pessoas!


Mesmo assim, surpreendi-me ao descobrir que a vila conta com uma boa variedade de serviços e equipamentos de cultura e lazer, como o palácio da cultura, a casa da música, a biblioteca pública, o cineteatro, a praia fluvial e um complexo esportivo municipal, que inclui piscinas, salas de musculação e de ginástica, e quadra de jogos. Sem falar que o mercado aqui é maior do que o que eu ia lá no Porto, haha!


Vista da Sertã, com a praia fluvial em primeiro plano e o complexo esportivo logo atrás

Embora a praia e as piscinas ao ar livre sejam um sucesso durante o dia agora no verão, o principal ponto de encontro e sala de estar da cidade é a Alameda da Carvalha, um espaço público ajardinado às margens da ribeira grande. Além de ser bastante aprazível e arborizado, o espaço conta também com bar, parque infantil, uma réplica de um antigo moinho de azeite, bem como uma boa variedade de bancos convidativos.


É nesse local que ocorrem os principais eventos, como o festival gastronômico, o festival PROVART de cerveja artesanal, as feiras de produtores locais, entre outros. Uma cidade cujo símbolo é uma frigideira não poderia deixar de ter na gastronomia um de seus carros-chefes, não? Mas deixarei isso como assunto para um texto futuro, até porque eu ainda não cheguei a degustar todas as especialidades locais!


Uma imagem vale mais do que mil palavras então, para não me estender nesse texto, seguem algumas fotos da vila: a nova ponte pedonal, que liga a Alameda da Carvalha ao parque do outro lado do rio; a Ponte Filipina, também conhecida como a Ponte da Carvalha ou ainda a ponte romana, uma ponte de pedra do século XVI; e uma tarde de domingo no festival de cerveja artesanal que rolou agora em agosto.


Ok, bacana, agora todo mundo conhece um pouquinho da Sertã. Mas, talvez, o que alguns de vocês estejam se perguntando é: o que eu vim fazer aqui? Por que deixar o Porto e vir para o interior? Algumas possibilidades:

  • Opção a) o aluguel no Porto estava muito caro e, como já não tenho mais aulas, resolvi buscar um lugar mais calmo e mais econômico para escrever a dissertação;

  • Opção b) entrei para uma "comunidade neo-hippie", que promove a busca pelo desapego ao consumo exagerado e ao ritmo de vida das grandes cidades. Ajudo a trabalhar a terra e desenvolver o grupo em troca de moradia e comida saudável;

  • Opção c) surgiu uma boa oportunidade de trabalho na minha área (saneamento) por aqui;

  • Opção d) participei de um concurso nacional e fui escolhido para ser o guardião do castelo por 1 ano, em honra à memória de Celinda.

O que vocês acham? Aceito respostas aqui nos comentários! Hehehe.

Ainda consigo sentir o cheiro do omelete queimado da Celinda

Por ora é tudo! Mas já que estou a morar por aqui, calma que teremos mais da Sertã e arredores em posts futuros. Afinal, a "Princesa da Beira Baixa" ainda guarda várias histórias! Contenham a ansiedade e até a próxima! ;)


- Luis



Obs: caso alguém queira ver ainda mais imagens, a Câmara lançou recentemente um vídeo promocional caprichado: https://www.youtube.com/watch?v=QHG8BqcO3b4

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